sábado, 26 de outubro de 2013

Dono de um Nada

Miro 16.10.2013

Só um resto
um cisco,
mesmo assim
a vontade estava ali:
pequena
e tênue
como um fio.

Tecia tramas
entre outras
vontades,
carregava nos olhos
o intenso
das feridas
sem curativos!

Pensava nas dores
como se fosse
Doutor,
mas era só dono
de um nada
prá la de
comum!

Cruz da Indecisão

Miro 16.10.2013

Era só uma vontade
que depois, muito depois
se transformou em desejo
simples como o néctar da flor!

Era só uma liberdade
que sem querer, se foi
no ralo comum de um beijo
tragado na fumaça do amor…

E aí veio o tesão sem conta
pronto para se fazer feliz
mesmo depois da paixão…

Mas sem ter a sina nos dedos
se fez menino indefeso
na cruz da indecisão!

Universo

Miro 15/10/2013

Era para ser só um verso
uma rima de mulher
medíocre
e sem sentido…

Mas o improvável
se fez poesia
e desafiou o tempo
com facas e canivetes…

Sangrou
a própria solidão
quase sem coragem…

Pois era para ser só
mas o nada se fez Universo
de uma rima qualquer…

Força do Qualquer

Miro 16.10.2013

Belo e rígido
como uma taça
sem vinhos ou seios
a sustentar!

Sentiu-se como gole
livre e sem causa
fazendo a vida
soluçar!

E assim sem críticas
em uma balança
do infiel…

Desatou laços e nós
com a louca força
do qualquer!

Em Greve com a Tristeza

Miro 23.10.2013

Mesmo que torto e infeliz
dobrar a tristeza no peito
caminhar sentindo pétalas
como se os pés tivessem chão…

Ter no olhar a porta aberta
e o sorriso largo dos horizontes
voltar a ser menino sem medo
ou qualquer recalque reprimido…

Estar em greve com a tristeza
como se ela não existisse
nos pedaços criados divididos…

E simplesmente parecer feliz
frente a ilusão de ser alguém
com o peito quieto e sem paixão!

Mulher Esperança

Miro 26.10.2013

Nos olhos
ainda tenho esperança
um tanto cansada
usada
mas mesmo assim
esperança…

Faz muito tempo
que ela nasceu
acho que foi
com a primeira
rima
ainda criança…

Ela cresceu
irmã da consciência
namorou
utópicos sonhos
e se casou com
a realidade…

Sofreu
com Sartre
e depois da separação
quase se tornou
agnóstica
sem a eternidade…

Recriou-se
mulher
quando lésbica
casou-se no civil
com uma virgem
paixão…

Já madura
e solitária
experimentou
de tudo
Santo Daime
erva da juventude…

Envelheceu
comigo
e hoje
sem pernas
corre só
na imaginação…

Logo será
minha lage
num abraço
eterno
em renovada
completude…

Bílis do Apego

Miro 26.10.2013

Preso na minha própria casa
caseiro de meu inferno astral
limpando fezes de meus cães
algemando rancor aos dentes…

Estou só sem terços nas mãos
num emaranhado de contas
nas costas a dor da frustração
frita o ciático no óleo tortura…

Traído pelos pés em desalinho
percorro os muros e cômodos
num incômodo rondar vazio…

Só paro no bacio do banheiro
onde descarrego minha alma
digerida pela bílis do apego…