quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Vestal Solidão

Miro 5 de outubro de 2010.

Há muito
ela previu
minha solidão!
Chegou-me quando
esta aconteceu
pela primeira vez!
Veio como uma pitonisa,
em roupas leves
e em brisas para sempre...
Tocou-me o rosto
em arrepios
e o calor
que lhe senti nos dedos
se fizeram ternos
e fiaram-me
eternos!
Fiz deles
meu sustento
nos momentos
intermináveis,
difíceis,
que sozinho,
quase sem forças,
pude entender,
pude tratar e ficar
processando em silêncio
minha mais completa
e vestal solidão!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Evanescente Vandré

Miro 26.09.2010

Em disparada
Vivi minha vida
Lembrando sempre
de Você
A tua imagem forte
O som de uma queixada
Acima da voz do público
Que por entre fantasmas
Barras e chuviscos
Aparecia de repente
Em branco e preto
Na televisão.

Teu ausente foi tão presente
No vazio dos noticiários
Até que um canal de notícias
Trouxe-me teu aniversário
Setenta e cinco anos
Quarenta afastado do mundo
Com barbas e cabelos brancos
Em uma entrevista rápida
Sobre um vôo
De solidão.

Antes deste encontro
Ouvi boatos e contos
Torturas, fugas, o exílio
Paranóias em silêncios
Histórias da Revolução
Confesso que meus olhos
Ficaram cegos
Em vão.

Com lentes distorcidas
De fortes graus imprecisos
Construi meus pensamentos
E acreditei no que ouvi
Cheio de preconteitos
Ante a tua
Decisão.

Por que se tornar eremita?
Por que tamanha exclusão?
Longe de mídias
De eventos
Dos ventos de qualquer
Confusão?

Não mais contacto
Sem risos ou escritos
Sem flores, sem "Aruanda"
Um exilado das dores
Enquanto em meu canto
Choro a falta de cordas
E dos acordes
Do teu violão.

Sem carta, sem notícias
Nem um som público
Só sinfonias reclusas
Será isto covardia?
Algum altista sinal?
Ou entre todas a maior
Desilusão?

Voei em caças mentais
A caça de tuas asas
A cata de tua
Razão.

Como viver sem ela?
Igual aos antigos quartéis?
Você sabe que ainda hoje
Lá na igreja dos Homens
A ladainha no coro
É a mais pura
violação!

O teu destino distante
A tua sina voluntária
Onde ficaram tuas frases
Sempre tão afiadas
Como espinhos cortantes
Diretos lá do
Sertão?

Busquei no tempo tuas rimas
E nas "Terras de Benvirá "
Encontrei o meu nome escrito
E em um dos teus sobrenomes
Uma coincidência
de irmão.

Claro que são só meus filtros
Dando cor à minha procura
Na viagem despretenciosa
Em tua discografia
Querendo o som dos teus sons
Algo além da entrevista
Uma simples
Inspiração.

Acabei me fazendo complexo
Confuso no próprio escrito
Prolixo em minha rima
Complicando a
Criação.

Depois de te ouvir sereno
Falando de tuas escolhas
Afirmo que ainda hoje
Elas ainda estão longe
De meu pleno entendimento
Mas não de minha
Compreensão.

Foi muito bom saber
Do lugar onde te escondes
Que ainda tocas violas
Que nem tudo era verdade
Que criaram muitas mentiras...
Que muito simples
E discreta
Era a tua
Intensão.

Comemoro o fim teu exilio
Com respostas que nunca virão
Sei que nele não há:
Culpas e arependimentos
E aquele "quem é homem
não chora"
?
Já não tem mais validade
Em minha humana
dimensão.

Chorei ao vê-lo de volta
Quiz ouvir a tua versão
Renovei esperanças perdidas
Mesmo que tenha sentido
Que ainda carregas tristezas
Em teu olhar retraído
Sempre em busca do
Chão.

Será que estás mesmo triste?
Será que estás mesmo só?
Será que ficarás "mal com Deus"?
Eu só quero em desejo proscrito
Que não sejas um morto-vivo
Um patriota sem
Perdão.

Eu quero mais do que lembranças
De um evanescente Vandré
Entrelaçado nas fibras
Como um "Rei mal coroado"
No meu velho
Coração!

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

371 a 418 Mikropoesias no Twitter

418 Posso dizer que te amo, mas inseguro eu nem te chamo. Posso te dizer que te quero, mas inocente eu só te espero. Eu te chamo! Eu te espero!

417 Nua encarou os fatos de frente, botou de lado o cobertor que não mais lhe aquecia e abriu a janela, indiferente ao olhar do sonolento vigia.

416 Apertamos tanto, tanto, os entretantos entre nós, que quebramos a casca e, por enquanto, ficamos sós: cada qual com seu meio pedaço de nós!

415 A voz era quase fanha, o nariz em alergias ía para um dos lados, os dentes tortos e na testa uma pinta vadia: uma bela de fatal assimetrias!

414 Quando apareceu na cidade em sua Harley fake, estava cabeludo e barbado, ganhou fácil algumas meninhas até descobrirem que ele era casado...

413 Se o cifrão $ é um S enrabado, o "o" um asterisco * estuprado, o arroba @, como o mito do anão, é suspeito só por ser um "a" superdotado?

412 Por muito tempo o k foi do alfabeto banido, quando foi solto estava tesudo e aflito, sem pensar, colocou o 8 de quatro e chegou ao infinito!

411 A vírgula, em miniperverso conto, queria transar por cima do ponto; tentou convencê-lo, sensual, mas este, tímido, disse não e ponto final.

410 Darwin: o C e o Ç, o O e o Q têm ancestral comum, como o macaco e Você! Alguém sabe porque diabos e como o tal elo perdido perdeu o rabo?

409 Lógica: Se o O é uma letra gorda e o I é uma letra magra, então o ponto de exclamação ! é um ponto de interrogação ? que tomou viagra?!

409 Meses depois que o jovem casal se posicionou em dois pontos: sem proteção ou consciência! Apareceu entre eles uma inesperada reticências...

408 Quando ela pediu hot-dog sem "vina" e o vendedor disse que assim era mais caro: virei sanduiche entre o pedido bizarro e o oportunista raro.

407 O microconto era minimalista, perverso, com profunda concisão, tão pequeno que só tinha 2 pontos: ou melhor um casal de pontos em copulação.

406 A ansiedade dela era tanta que comia fruta verde com gosto de apodrecida, dava parabéns adiantado e sentia saudade 2 dias antes da partida!

405 Adoro inventar coisas inúteis e sem graça: como um celular híbrido, etílico-eólico, recarregado na própria conversação pelo bafo de cachaça!

404 Descomissionei-me aos poucos do jogo: cabelos crescendo em cachos, o tênis sem cadarços, a calça Lee desbotada, a camisa xadrez e mais nada.

403 Na mesma taça de vinho marcas do vício em batons diferentes! Era um indício que na noite quente, a tal homofobia fugiu com o meu ausente...

402 Esquecer o coração em guerra, a mente em total viagem, algum orvalho ainda existe? É o triste que cai dos olhos ante a tua poetisa imagem!

401 Deitar na grama: o céu azul olhar, ficar no limite terra e ar, sentir o breve da brisa, algum calor vem da terra nas folhas verdes e lisas?

400 A lágrima era justa, a saia também! Não queria ficar ali não se sentindo bem. Atrapalhada, disfarçou o choro e saiu quase sem ser notada...

399 Olhava o mistério da menina com cuidado! Como descobrí-la nas entrelinhas do agora? Acabou como Esfingie num louco decifro-te e me devoras!

398 Não criava raizes em nenhum trabalho, sem pensar vendeu a roupa e a mobília, foi se especializando até se tornar marajá com o bolsa família!

397 Depois de ver todas as seis séries de Sex and The City, ele virou para o namorado e perguntou se seus valores éticos estavam desvirtuados...

396 Chegou cedo em casa e deu de cara com o síndico do edifício dela! Sobre os barulhos da noite? Prometeu gemer menos e fechar melhor a janela.

395 Era um momento de intensa paz, haviam agulhas espalhadas nos pontos vitais, as moxas deixavam no ar um cheiro de woodstock limpando canais!

394 Era cruel quando colocava a lingerie da mãe em cima do peito peludo, com pose de coelinha da playboy pagava o mico em troca de troco graúdo.

393 Endividado em suas carências afetivas, buscou refúgio em uma rave lotada e barata, encostou em uma aqui, em outra ali até se apagar na mata!

392 Como poucas sabia que não devia insistir com palavras, pagou a conta e a levou para casa decidida, só não contava com o gelo na despedida.

391 Com aquela cor azul banana e o olhar de macho Delta em transgênero jeito, ela chegou a conclusão de que ciúmes era só uma falta de respeito!

390 Em solidão, criou ao redor de si asas de uma disparada de lendas e verdades de poucas cores: só para não dizer que não falou das flores...

389 Atrás de tua pista solteira, em clínica de filme noir, por onde encilhas meus demônios, que em psico-matilha, visitam teu ventre em fieiras!

388 Passo tinta em teu retrato, como fiz com aquele quadro do Chê, crio uma natureza morta, sem brilhos, sem vida, tudo que me alimento de Você!

387 Derrubei nos olhos a fantasia de tê-la ao lado, no arrepio de tuas cochas ao toque de minha mão atrevida. Hoje fujo deste olhar atravessado.

386 Afastei-me dela conscientemente, horas de ausências a fio, sem a sua presença, o coração foi acalmando e sendo tomando por um intenso frio.

385 Há momentos que me sinto dando milho para cobras pensando alimentar galinhas, a bicada deixa marcas duplas imperceptíveis à minha cegueira.

384 Torto, fiz Você em poemas e imagens. Solto, brindei Você nas noites vazias. Louco, mandei 17 mensagens. Morto, só obtive respostas frias...

383 Era a caricatura viva de minhas maiores loucuras, chegou tão depressa que nem vi passar, parecia intensa e se fez lixo ainda em carne crua.

382 Não havia mais do que uma sensação de vazio, sem gosto, sem perfume, o morno da manhã condensou a paixão no sujo dos teus vidros quebrados.

381 Não quiz assustá-la com minhas mãos frias sob o avental. Depois disto foi como uma geladeira aberta gastando energia em crime ambiental.

380 Ela é sentinela de minha história, memória bela que dela me faz prisioneiro, com desejo inteiro, intenso e denso como se fosse o primeiro.

379 Molham-me suores e lágrimas, côo desejos em páginas, o que resta é o mosto de um rosto que sem tatuagens ou mágica embriaga-me em lástimas.

378 Amor, paixão e dor em terno, trinca nas mãos de espantalho, torto em sua missão vã de afastar asas de qualquer emoção.

377 Tua cegueira é um inconveniente haraquiri: interessada no status quo existente finge não enxergar que meus olhos suicidam-se cegos por ti...

376 Na falta de teu carinho tomo um sorvete de queijo com creme de goiabada, sem tua atenção como chocolate a vontade: assim compenso a saudade!

375 Ela se foi, a semana, curta como minisaia de puta, vazia de surpresas como sutiã de freira, improdutiva de tanto criar besteiras.(como esta)

374 Sou capaz de contar estrelas desconhecidas, em lágrimas perdidas sei seguir cometas raros e em devaneio cego achar o teu olhar mais claro.

373 A tarde passa como contas de rosário em dedos de ateu. Meu mundo interior encolhe em viagem vã: quero o amanhã do amor que hoje não é meu...

372 Lembra aquela vez que fui ao parque? Após o décimo nono loop consecutivo na montanha russa esqueci completamente a ansia que tinha por Você!

371 Há vida no meio de tanta ausência. Uma lacuna aberta no vácuo da saudade, me fêz eternamente atento por alguns instantes de inconsciência...

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

8

Miro 29.09.2010


No caos de teu fuzuê
minhas poesias descansam,
ora como costas de rabiscos,
ora como marcador de agenda,
de vez em quando lês os escritos
e sem sentir amante ou amiga
desnuda-me por segundos
ante tua consciência,
depois me esquece,
me perde,
na bagunça que tece
ao redor da existência,
fico nas traças do teu mundo
como alguma borracha antiga
que só apaga o que não foi dito,
que não serve nem como lenda,
apenas um objeto entre ciscos
a espera que dedos atrevam
levar-me perto de Você.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Filme Noir

Miro 28.09.2010

Uma psicodélica armadilha
numa psico-dança circular
as voltas de uma fogueira
de chamas verde-azuladas
quentes como as tragadas
de narguilés em gafieiras
onde amplas fumaças no ar
dão sinais de vida na ilha.

Neurônios além da escotilha
voam fáceis sem sair do lugar
fugindo da própria coleira
ligam fitas desmagnetizadas
onde a memória foi apagada
por ímãs de cósmica poeira
que viajam por naves sem mar
tatuadas vezes em tua virilha.

Perto em quiralidade trilha
tua imagem folga no olhar
sobrepõe com luzes ligeiras
minhas sombras estagnadas
que zanzam à falta de estrada
atrás de tuas pistas solteiras
em clínica de um filme noir
crua dor por onde me encilhas.

Demônios em psico-matilhas
correm ao teu redor sem parar
visitam teu ventre em fieira
em contraste ao gelado nada
de minha extensa madrugada
que em fugaz via aduaneira
camufla o prata de teu luar
como um íncubo te dando pilha!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

250 mililitros de Coca-cola

Miro 22.08.2010


250 mililitros
da pequena
coca-cola
renovam
o tempo
e as vinte
e uma gramas
do peso de minh'alma
no prazer da memória
uma garrafinha de vidro
de onde um bom gênio saia
com cheiro de doce canela
escuro como água de rio
explodindo nas papilas
a sede em micro bolhas
o vermelho do seu rótulo
o branco de suas letras
um vai e vem em ondas
que já estiveram em litros
em máquinas, pet família
em latas de puro alumínio
mas a dose de minha sede
que eu nunca quiz matar
era ter a boca seca do jogo
no gelado da garrafinha
descontrolada na mão
era o troféu possível
pela minha vitória infantil:
festejo simples do meu coração!


Circulus Imperfectus


Miro 21.09.2010

Inexperiência

Olho para minha inexperiência
experimento enxergar o meu vivido
o modo estranho como tenho agido
com alguma ou total inconsciência.

Reflexão

Coloco-me sob intensa reflexão
busco um olhar com outros olhos
em qualquer feedback que recolho
a espreita de alguma inspiração.

Análise

Com um olhar um pouco mais preciso
deito detalhes no bojo do meu cálice
busco interações em minha análise
sem deixar o todo ou ser conciso.

Plano de Ação

Deixo surgir do nada alguma criação
que estruture e nutra o meu fazer
algo sustentado pelo meu querer
um desenhado plano antes da ação.

Ação

Rompendo riscos, fossos e cruzes
ajo no caminho da eleita intenção
com energia, mente em foco e coração
com gosto gasto minhas forças e luzes.

Experiência

Retomo a ciência do caminho escrito
que me levaram ao degrau mais avançado
e sem arrogância pelo novo conquistado
revejo o que flui e o que é atrito.
Refinamento

E quando o agir em mim se consolida
em dominado tom de fiel performance
dedico-me a ele feito um romance
refinando estilo em minha vida...

Não consciência
.
Mas se cego frente ao que domino
acreditando dar conta de tudo
albergo dores neste meu descuido
quando pelo próprio dom eu me fascino.


Inexperiência

Olho para minha inexperiência
experimento enxergar o meu vivido
o modo estranho como tenho agido
com alguma ou total inconsciência...