sábado, 18 de março de 2017

Pelágicos Embrulhos

Miro 18.03.2017

Tua presença me confunde
como uma bússola inocente
paquerando um perverso ímã
que rasga o véu dos sentido
e deixa nua a rosa dos ventos…

Não há como acertar as vergas
diante de teus éolos erráticos
que enfunam e murcham panos
como enganosa ilha flutuante
no olhar exausto dos naufrágios…

Uma corrente marítima instável
que faz bambolear meu tombadilho
deixando meus sextantes inúteis
e os astros tontos e sem ditas
para traduzir alguma calmaria…

Não há como pescar teus signos
e diante de ondas de tesão e dor
meu talha-mar derrete-se, congela
num influxo azedo que mistura
sal de jejum e mel esbanjamento…

E a mente num escaler sem remos
digita SOS ao coração mareado
que lambe teu peixe de sereia
num testamento sem herdeiros
que picua pelágicos embrulhos… 





Significados de termos incomuns...

rosa dos ventos é um desenho que serve de instrumento para a navegação geográfica, utilizada para auxiliar a localização de determinado corpo ou objeto em relação a outro. É formada pelos pontos cardeais e seus intermediários.

éolos: ventos vigorosos

erráticos: que mudam constantemente, irregulares, imprevisíveis

enfunam: que enche as velas do navio de ar

sextante: medidor óptico de reflexão, que permite medir a altura dos astros e seus ângulos dentro de embarcações, mesmo diante da instabilidade do observador. 

tombadilho: superestrutura erguida na popa do navio

talha-mar: parte inferior do beque do navio, que é a parte mais avançada da proa, em sentido figurado nariz.

influxo: influência

escaler: pequena embarcação a remo que serve de transbordo e salvamento nos navios

picua: entesoura


pelágicos: marítmo



terça-feira, 14 de março de 2017

Complexo Querer

Miro 14.03.2017


Ah! Meu simples querer
que quer fazer o bem
e que quer também
o querer dos outros
em igual simples querer…

Ah! Meu injusto querer
que quer mais da justiça
que não valida a cobiça
e quer com os outros
um eterno absolver…

Ah! Meu torto querer
que quer as curvas
o caminhar que turva
e sem os outros quer
com os tombos aprender…

Ah! Meu direto querer
que vai logo ao ponto
sem sequer estar pronto
e dos outros deseja
um sim pra sobreviver…

Ah! Meu ingênuo querer
que considera normal
qualquer falso ideal
que alguém me apresenta
dizendo me proteger…

Ah! Meu árido querer
que teima em fecundar
no estéril pensar
um porquê que machuca
por mero prazer…

Ah! Meu complexo querer
que é pelo menos a dois
que é do agora e não depois
e que usa o tempo
pra se esvanecer…

sexta-feira, 3 de março de 2017

Pêndulo Poleiro


Miro 3.3.2017

Era para ser só uma ausência:
pequena dependência 
revirando-se no estômago,
mesmo quando este
cheio de chocolate
jazia em compensação…

Era para ser só uma tristeza
daquelas onde a própria natureza
paralisa o tonus da vida
e escorrega sem pressa
para o fundo do poço
em fiel depressão!

De repente virou esperança
e nos olhos férteis da lembrança
transformou em brinquedo
as nuvens de chumbo
que descoloriam
o véu da capacidade…

Aí cresceu e se fez patroa
dos pensamentos à toa
e do livre coração,
engaiolando-os juntos
no tal pêndulo poleiro
que se chama saudade!

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Espinhos & Sementes

Miro 15.12.2016

O quanto lamento ainda te amar?
Quase nada, pois nada tive de Você
e neste amor sem tempo ou porquê
não cabe perdão, nem arrependimento.

Nem sei se é um forte sentimento
sei que dura uma eternidade vazia
e produz uma puta saudade vadia
que machuca sem Você me tocar!

Mesmo assim cultivo a esperança
de vê-la em quentes carinhos
sentindo o mesmo que sinto por ti!

Mas tudo morre sem ser criança 
quando escolhes os espinhos... 
das sementes que não te ofereci!

Silêncio Consuetudinário

Miro 10.01.2017

Como viver momentos 
extraordinariamente normais...
sem que ninguém saiba
de minha profunda irritação
com tanto feijão com arroz? 

Como tratá-los como devem 
se não causam nenhum impacto 
em minha memória emocional 
e estarão esquecidos logo logo 
sem nenhum depois?

As vezes os conto 
como se fossem diferentes
e deles faço de conta que formam 
um rosário de contas iguais, 
onde entôo a mesma prece 
em silêncio consuetudinário…

Outras os deixo tomar doma
do meu grito mais animal 
e os solto num rugido surdo 
na floresta de concreto armado, 
só para sentir o eco 
de outros gritos iguais 
que cantam a solidão 
do trivial ordinário…

O que faço com eles, 
se eles aumentam minha coleção 
de incipientes escolhas 
que não produzem nada... 
nada além do nada?

Talvez num dia destes qualquer 
assumo a coragem 
de tratá-los com tal desprezo, 
antipatia e desrespeito, 
e numa convencional poesia…  
os grife com um tom diferente 
da normalidade acostumada!

sábado, 15 de outubro de 2016

Com quem aprendi...

Miro 15 de outubro de 2016


Com quem aprendi:
a andar descalço sem machucar os pés,
a acreditar no além sem os rigores da fé,
a acertar o passo da dança depois do tropeço?


Com quem aprendi:
a controlar a sede quando a água era escassa,
a segurar o gozo quando o tesão tinha graça,
que a ajuda justa é por quem não tenho apreço?


Com quem aprendi:
a liberar a lágrima do choro mais contido,
a segurar o riso quando ele era indevido,
a ficar calado quando a ordem interna era gritar?


Com quem aprendi:
a voltar atrás mesmo seguindo em frente,
a se diluir no povo por ser um ser diferente,
em ser primeiro único antes de me multiplicar?


Com quem aprendi:
que a dor dos outros em mim pode virar uma arte?
o que perdi quando ganhei acirrada competição
que o perdão é algo além da palavra reparação!


Com quem aprendi:
a ver o todo além da aritmética das partes...
a brigar tenazmente por momentos de paz?
a valorizar o que faço... mesmo quando incapaz?

Com quem aprendi:
que meus amores eternos de vez em quando me odeiam,
que perfumes afrodisíacos nem sempre incendeiam,
que as tristezas são raízes do fruto felicidade?


Com quem aprendi:
que meu velho medo me fêz infante corajoso,
que a coragem pode ladear o ser cuidadoso,
que minha coerência é feita de ambiguidades!

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Olhar de Náufrago

Miro 3 de outubro de 2016
(115 anos do nascimento de meu poeta e avô Quintiliano Pedroso)

Acordo com o olhar de náufrago
que no horizonte cria esperança 
e agasalha na pele o seco do sal
tendo a solidão como escudeiro!

Com um gosto de inexistência
consumo o tempo com o nada
enquanto nadam ao meu redor
os vazios de um oceano inteiro.

Só as estrelas me consolam… 
elas trazem algum brilho vadio
que mantém o doce no olhar!

Arrependo-me do desejo de mar
inundado de todo seu imenso
que sói me corroer... sem me levar!